Álibi

14 14America/Sao_Paulo novembro 14America/Sao_Paulo 2011

É noite de domingo em Salvador, Bahia, e a soma dos acontecimentos do dia não abrangeu acarajé, nem axé, nem badalação. No máximo um pé sujo de areia e um pouco de cloro de piscina no corpo. As morenas sensuais sedentas por azaração não apareceram, nem quase todas as outras coisas que permeiam o arquétipo que habitam as mentes cheias de ideias viciadas dos estrangeiros a esta terra.

O estereótipo do discurso do estrangeiro, seja ele paulista ou mineiro, à notícia de que um cidadão ruma para a Capital da Capoeira engloba necessariamente interjeições que aparentam inveja e frases que acusam uma sorte extraterrestre ao viajante. Normal. Salvador, de fato, é uma bela cidade, cheia de diversidade, mar, e atrações turísticas. Ter a oportunidade de desfrutar de todos esses predicados pode se encaixar sim no conceito de privilégio. Não gosto da sua praia, é verdade, acho-a de um design ruim pra se entrar na água, e que perdeu bastante da graça depois que a Prefeitura mandou demolir todas as barracas no seu entorno (aqui, quiosque é chamado de barraca). Mas ainda assim, só o contato com a maresia no rosto e o escutar do seu barulho, ao melhor estilo concha-na-orelha, já me faz despertar alguns sentimentos virtuosos com os quais eu raramente topo vivendo na selva de pedra. Rousseau, em suas teorias sobre o bom selvagem, já falava que todo ser-humano nutre uma paixão platônica com a vida em meio à natureza, perto do verde e da água, longe da cidade. Se pá ele tinha mesmo razão.

A questão fundamental, entretanto, é que Salvador é a cidade onde mora meu pai. Ao longo do tempo, percebi que vir pra cá, antes de qualquer coisa, significa visitá-lo. Não se trata de uma observação a esmo. O caráter episódico de nossos encontros, fruto das centenas de quilômetros de distância que nos separa, é um fator determinante em nossas vidas, e percebo que quanto mais velho eu e ele ficamos, mais a vontade de estar próximo de seus filhos se intensifica. Sobretudo, pelo fato de a terceira idade já começar a apontar em seu horizonte, acredito.

É por isso que minha rotina durante os dias de Salvador costuma sempre estar condicionada à dele, o que normalmente não implica em axé, nem em badalação, nem em morenas sensuais sedentas por azaração. Peço desculpas aos meus amigos se eu não voltar com a derme torrada de sol nem com histórias sobre comas alcoólicos pra contar.

Mas posso falar do jogo da Bahia que assistimos na TV, se quiserem. Ganhou de 1 a 0, fora de casa. Gol de Souza.

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Em 2009, também escrevi sobre minha vinda à Salvador, em um antigo blog. Acho que é de um contraste interessante com o texto de acima:

http://disparada.wordpress.com/category/brasil/


Na relojoaria

7 07America/Sao_Paulo novembro 07America/Sao_Paulo 2011

- Bom dia. Gostaria de consertar meu relógio. Minha pulseira soltou porque estourou esse negócinho aqui, é uma espécie de…de…de uma molinha propulsora. Como você chama isso aqui?

- Pino.

- Ah.


3h43

7 07America/Sao_Paulo novembro 07America/Sao_Paulo 2011

Viver com V é arriscar-se.


Lula, cure-se.

30 30America/Sao_Paulo outubro 30America/Sao_Paulo 2011

Não tenho muito mais que acrescentar nesse burburinho envolvendo o Lula e seu câncer que está acontecendo nos comentários de ódio nas notícias de internet e na campanha no Facebook para que o ex-presidente use o SUS. Sublinho tudo o que a Juliane, o Marcos, o Dimenstein e o Xico Sá já disseram.

As pessoas terem ódio é normal, faz parte do instinto e com certeza é ele um dos responsáveis pela manutenção da espécie. Mas acontece que, não sei a partir de quando, manifestar ódio gratuitamente em público virou socialmente reprovável. E aí que na internet a galera tem dado um jeito pra driblar essas limitações.

No caso dos comentários de ódio, o anonimato protege a identidade e garante a reputação. Posso externar meus sentimentos mais obscuros sobre o Lula sem a menor dó que  ninguém vai saber quem eu sou.

No caso do Facebook, a campanha para o uso do SUS se traveste de algo nobre, afinal, é só com os políticos fazendo uso dos serviços públicos que eles irão melhorar, não é mesmo? No fundo, é só mais um jeito purpurina de expressar o rancor visceral: já que, como todos sabemos, o SUS é uma bosta e o Lula morreria se fosse pra lá (o que é mentira, já que o SUS é referência no tratamento do câncer).

Eu não gosto do Lula e tenho até uma certa raiva dele, ainda que por motivos diferentes do que os da maioria. Mas daí a desejar que ele queime nas labaredas do inferno, vão-se léguas.

E creio que seja exatamente aí que reside a distinção do bárbaro do civilizado, se é que dá ainda pra usar esses termos: a forma como tratamos nossos inimigos.

Lula com o boné do agronegócio, imagem que resume bem o que foi o seu governo: a conciliação cosmética dos interesses de classes sociais


Sobre as acampadas no mundo

29 29America/Sao_Paulo outubro 29America/Sao_Paulo 2011

Pra onde vai, não sei. Só sei que os anos 60 ainda ecoa fortemente nisso tudo – anticapitalismo regado a muita cultura hippie. O ingrediente novo é a cultura digital, usada de forma inteligente e criativa.

O tripé que sustenta as acampadas – apartidarismo, não-violência, deliberações por consenso – também é sessentista. Há inúmeras críticas sobre esses princípios, eu mesmo possuo as minhas, mas é inegável que pode ser exatamente eles que mantém a coesão das acampadas e permitem o seu crescimento.

A perplexidade de muitos militantes experientes sobre a infinitude das bandeiras dos  movimentos (“Afinal, quais são as reivindicações, porra?!”) é um imperativo. E denota, talvez, o choque cultural entre gerações distintas na forma de fazer política contra-hegemônica.

Divergências à parte, um ponto acho que é consenso: sempre é bom ocupar as ruas e poluir politicamente a paisagem natural. O perigo, entretanto, reside justamente nisso: as acampadas virarem paisagem.


Hoje, ontem, não me lembro.

30 30America/Sao_Paulo agosto 30America/Sao_Paulo 2011

Hoje, cai da bicicleta. Ou acho que foi ontem, não lembro.

Finalmente, depois de 8 meses, a cidade conseguiu me marcar. Bem no joelho destro e no tornozelo esquerdo. Fazia tempo que não via meu próprio sangue, e lá estava ele, vermelho e teso como sempre esteve. Levantei assustado, grogue, embevecido por adrenalina. Mas até que por um lado foi bom: minha vida estava mesmo precisando de emoção.

Me recompus, levantei-me a mim e a ela e comecei a avaliar o acontecido. Não houve sequer a premeditação da queda: de repente o chão ficou mais fundo do que deveria. A roda da frente caiu, a de trás alçou vôo e eu segui o trajeto costumeiro. Testei a gravidade e posso dizer agora que ela continua a mesma. Malditos desníveis invisíveis, pensei. Um deles havia cruzado o meu caminho.

Benditas luvas. Não fossem elas, presente da minha mãe visionária, provavelmente estaria sem as palmas da mão agora. Foram as primeiras a fazer contato com o asfalto paulistano. Do chão não passa, costuma dizer minha vó. Do chão não passei.

Mas agora vou dormir com dor. Uma dor que me lembra a infância, quando ralava o joelho uma vez por dia.

 

E hoje terminei seu Women

 


É lei? É lei.

25 25America/Sao_Paulo julho 25America/Sao_Paulo 2011

Não havia sido por falta de aviso.

Chica Léia agora estava presa por praticar a liberdade individual dentro da própria casa. Nunca tinha desejado mal ao próximo, exatamente como sugere o mandamento do livro, mas ainda assim atravessava a rua algemada. Plantar maconha no quintal, por incrível que pareça, é sim crime por essas bandas de onde escrevo – com chances redobradas de prisão em caso de cor de pele negra. Chica Léia descendia de escravos.

Um telefonema anônimo disparado pela manhã começara aquilo tudo. Os agentes da lei só chegaram à tarde, 5 horas depois, onde encontraram uma moça de roupa tropicalista, sem sutiã, à vontade ao som de Sgt Pepper’s. Chica Léia deixava o portão aberto, desligada que só vendo, nunca foi dessas paranoias de assalto iminente.

Mas quem entrou naquela tarde não era o ladrão, muito pelo contrário. E entraram sem o menor aviso, sem mandado, sem ternura, como sói:

- Mãos ao alto

Passados o flagrante, a surpresa e a indignação, Chica Léia cruzou a rua cabisbaixa e desembocou no camburão. A PM que a conduzia, negra tal qual, cuspiu: “se mexe, criôla, se mexe.”

Na delegacia, o delegado sorriu. Ia verbalizar qualquer coisa irônica e maliciosa, mas foi interrompido pelo zunido do telefone. Chica Léia passou reto, direto para o xadrez.

E lá estava ela, dividindo a cela com mais 20, todas negras, todas presas por tráfico. Mesmo crime que o sistema agora carimbava no atestado criminal de Chica Léia, apesar de esta nunca ter lucrado um único centavo com seus três pés de canabis apreendidos.

Foi só no décimo dia que o advogado amigo de um amigo conseguiu pôr Chica Léia na rua de novo. O namorado a buscou de carro, com mais 3 amigas no banco de trás, que acompanharam a ex-ré primária no abandono do cárcere que a roubou dias da vida. Tão cedo dobrou a esquina, pediu pra abrir o porta-luvas e encontrou o que procurava. Dixavou, ajeitou na seda, passou a língua e alcançou o isqueiro, na bolsa.

Questionada por Julinha sobre se não tinha medo, respondeu de pronto, enquanto exalava fumaça:

- A partir de hoje, isso aqui deixou de ser só pelo barato. Agora virou meu jeito particular de protestar.

E seguiram pela avenida, rumo à casa de Chica Léia, na rua Vinoma.

 


Louça brota

17 17America/Sao_Paulo junho 17America/Sao_Paulo 2011

Sabe cultura de bactéria? Que num dia tá limpa, noutro, como que de repente, já tá toda esmancheada, suja?

Pois louça é igualzinho, só que mais triste.

Louça

Realmente mais triste. Sujar louça é a coisa mais fácil do mundo – basta comer – mas lavar louça é trabalho de Jó. O que mais me intriga e nunca vai me deixar de me intrigar é a facilidade de louça suja em brotar. Basta cozinhar um miojo que, incrivelmente, lá está aquela pilha porca de novo.

SECAR e GUARDAR louça, pra abrir espaço no escorredor, é outra merda. E talvez a merda maior é que louça suja é improcrastinável; se você não lava, você não come, e desta forma, em pouco tempo, você morre.

Ou seja: lavar louça é questão de vida ou morte.


Tem dia que é noite

15 15America/Sao_Paulo junho 15America/Sao_Paulo 2011

Você acorda, cansado, mesmo com 10 horas de sono. Você levanta, atrasado. Abre a geladeira, toma o leite, estragado. Vai ao banheiro, não tem pasta de dente.

Você sai correndo, desce 10 andares, sai pra rua, aquele puta frio, aquele puta vento, e vê que esqueceu a porra do cartão do ônibus. Tem que voltar. Você volta, lá se vão mais 5 minutos, até o elevador descer, depois subir, aí até achar o cartão do ônibus no meio da bagunça que você prometeu que nunca mais teria, e aí até pegar o elevador de novo, lotado àquele horário da manhã, sim, são 5 minutos. O suficiente pra você perder o ônibus por míseros 10 segundos, mesmo correndo pra alcançá-lo.

Seu trabalho sai uma merda, você não consegue fazer o que planejou, você não consegue falar as palavras que pensa, você sai na rua, aquele puta frio, aquele puta vento.

Chega em casa e aquela puta louça suja. Vai pra internet, fica preso nela, e só consegue sair à uma e meia da matina, mesmo tendo prometido que só ficaria 15 minutinhos pra responder os e-mails.


Brasil, um país de surdos?

23 23America/Sao_Paulo maio 23America/Sao_Paulo 2011

por Bernardo Marquez

No quarto de um apartamento do 9˚ andar em plena Avenida Paulista em São Paulo os automóveis reinam. As sirenes, apesar de momentâneas, nada discretas e opressoras, pontuam manhãs, tardes e noites sem distinção. O vento tranquilo não existe. Ou é o bafo grave que sobe do metro, ou o vestígio de energia do ônibus, ou será um avião? Se for chuva forte com trovão a janela vibra. Um helicóptero faz vibrar o apartamento inteiro. Um pássaro? Não, era o apito de um guarda que faz acalmar uma fila de freios agudos que rasgam pneus e tímpanos. A orquestra sinfônica de uma construção só não é mais harmônica pois uma britadeira solo mascara seus demais companheiros menos privilegiados.

Faz-se vibrar. Se daqui de cima o caos está na briga pelo primeiro plano, um passeio pela cidade confirma a potência sonora dos transportes públicos. O estresse do paulistano é um estresse sonoro. Não há espaço para um pensamento tranquilo. Wagner disse: “O homem voltado para o exterior apela para o olho; o homem interiorizado, para o ouvido”. “Outdoors” já foram proibidos e a poluição visual agradece. Quantos anos ainda teremos de indiferença à poluição sonora? A palavra silêncio se desintegra a cada dia, não existe um significado. Para tampar o sol com a peneira não dou dez anos para que os postos de saúde passem a distribuir protetores auriculares gratuitamente. Resolve?

O massacre a audição. A auto-mutilação cotidiana em forma de fones de ouvido. Qual é o  seu ponto de escuta? Intensidade: qualidade do som, da velocidade do tempo. O progresso regride na indiferença da percepção acústica e se impõe com o barulho. Façamos silêncio para uma revolução.

Berna Marquez


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